Estivesse eu na Pousada Aconchego do Raso, no final da tarde/noite do dia 31 de outubro de 2024, era isso que eu diria, como palestrante convidado, a cada um dos participantes da Expedição Sertão e Raso da Catarina.

A antiga 10ª Região Administrativa da Bahia compreende grande número de municípios, estando o município de Paulo Afonso localizado em sua região central. Mais ao sul ficam os municípios de Santa Brígida, Jeremoabo, Canudos e Euclides da Cunha e mais ao norte, os municípios de Glória, Rodelas, Abaré, Chorrochó e Macururé, todos dentro do território do Raso da Catarina, dentro do bioma Caatinga.

Paulo Afonso também se limita com outros municípios dos Estados de Alagoas (Delmiro Gouveia), Sergipe (Canindé do São Francisco) e está bem próximo do Estado Pernambuco (municípios de Jatobá, Petrolândia, Tacaratu, Floresta).

Parte desta região, a que é banhada pelo rio São Francisco, mereceu a preocupação da Chesf quanto ao seu desenvolvimento futuro, uma vez que, em meados de 1995 estaria sendo encerrado o ciclo de grandes obras na região, que durou 50 anos e se concluía com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Xingó.

Esse ciclo de obras gerou muitos milhares de empregos e durante esse meio século dessas grandes obras, surgiram e crescerem muitos destes municípios no entorno do rio São Francisco, dentre eles Paulo Afonso, Rodelas, Macururé.

Outros municípios, já existentes e até centenários como Glória(BA), Petrolândia(PE), sentiram o impacto das obras da Chesf, com suas sedes originais inundadas e seus moradores transferidos para outras áreas, ficando suas memórias ancestrais sob as águas de imensos reservatórios.

Como uma espécie de preocupação sobre o futuro dessa gente, e apenas desses moradores ribeirinhos do grande rio, um dos cuidados da Chesf naquela década de 1990 foi criar o Instituto Xingó e o Fórum para o Desenvolvimento da Região do São Francisco e para neles, nos seus primeiros anos de funcionamento, esses órgãos buscaram alternativas de desenvolvimento regional em várias áreas, inclusive em relação ao turismo.

Por iniciativa do Engenheiro João Paulo Maranhão Aguiar, então assessor da presidência da Chesf, a empresa hidrelétrica patrocinou a realização de um estudo coordenado pelo Sebrae de Pernambuco, realizado no ano de 1997 e em 1998, depois de vários meses de trabalho, as equipes identificaram os aspectos referentes à cultura, artesanato, gastronomia, arquitetura, assim como os atrativos turísticos naturais e culturais, o potencial turístico, de 25 municípios, todos ribeirinhos, ou próximos ou afetados com a construção dos grandes reservatórios de Moxotó e de Itaparica nesta região.

Foram visitados e pesquisados seis(6) municípios do Estado da Alagoas (Água Branca, Delmiro Gouveia, Olho D`Água do Casado, Pão de Açúcar, Pariconha e Piranhas), sete (7) do Estado da Bahia (Abaré, Chorrochó, Glória, Macururé, Paulo Afonso, Rodelas e Santa Brígida), seis (6) do Estado de Pernambuco (Belém do São Francisco, Floresta, Itacuruba, Jatobá e Petrolândia e Tacaratu) e seis(6) do Estado de Sergipe (Canindé do São Francisco, Gararu, Monte Alegre, Nossa Senhora da Glória, Poço Redondo e Porto da Folha).

Como se pode ver, os municípios estudados têm como referência serem todos eles ribeirinhos do rio São Francisco ou bem próximos dele. O rio foi o caminho das águas que os uniu nesse projeto.

Ao final do longo trabalho de pesquisa, de que participaram historiadores, geógrafos e arquitetos, foi entregue à diretoria da Chesf e a cada município um relatório chamado

Cerca de dez anos à frente, no ano de 2009, por iniciativa do município de Paulo Afonso, através do Departamento Municipal de Turismo (DEMTUR), dirigido pelo Professor Antônio Galdino da Silva e do Conselho Municipal de Turismo foi levantada a situação do turismo em Paulo Afonso e cidades vizinhas que ficavam dentro da Zona de Turismo Vale do São Francisco, sediada em Juazeiro da Bahia e esta região tinha pouca ou nenhuma visibilidade para ações nesta área.

Aproveitando-se do momento em que, por orientação do Ministério do Turismo, os Estados estavam realizando um processo de Regionalização do Turismo, foi feita a proposta à Bahiatursa para o desmembramento desta região da ZT Vale do São Francisco e se criasse, com os municípios mais próximos de Paulo Afonso, uma nova ZT e nasceu a Zona de Turismo Lagos e Cânions do São Francisco, discutida em reunião no Centro de Convenções, em Salvador onde se reuniam 98 municípios turísticos da Bahia sendo aprovada a sua criação ali, em 17 de março e referendada pelo Fórum Estadual de Turismo ali reunido em 18 de março de 2009.

Esta nova ZT Lagos e Cânions do São Francisco também estava focada nos municípios ribeirinhos do rio São Francisco – Paulo Afonso, Glória, Rodelas e Abaré e também Santa Brígida pelo seu potencial de turismo religioso e a sua proximidade com o município de Paulo Afonso.

Pelo que lembro, na época da criação da ZT Lagos e Cânions, alguns dos municípios localizados no Sertão e Raso da Catarina, como Jeremoabo, Canudos e Euclides da Cunha faziam parte ou foram indicados para a Zona de Turismo Caminhos do Sertão para onde, como soube depois, quando já estava fora de atividades nesta área, teria preferido ir depois o município de Santa Brígida.

Como se pode ver, embora o foco da Chesf, no final do século, fosse a exploração do potencial turístico regional estava voltado para os municípios banhados pelo rio São Francisco ou próximos desse grande manancial, e alguns outros por características diferenciadas, como Santa Brígida que além de estar relativamente próximo do rio São Francisco tem um grande potencial associado ao turismo religioso que se estende às suas serras em Vias Sacras de muita participação popular, a Bahiatursa e o governo do Estado tiveram um olhar também para esta região do Sertão.

É preciso deixar claro que, se não houver o total comprometimento dos gestores, prefeitos e secretários associados a esse objetivo, novos projetos virão e irão embora sem deixar os resultados que se deseja. No meu empenho para conseguir algum resultado tive o desprazer de ouvir de secretários municipais que “turismo não dava voto”.

E essa falta de compromisso e de comprometimento de prefeitos de muitos dos municípios envolvidos, nos dois projetos citados – o da Chesf, em 1998 e o da Bahiatursa/ Governo do Estado em 2009 -faz com que se continue tendo na região um grande potencial turístico, no rio e no sertão, adormecido há séculos.

Talvez os gestores não conheçam que países de outros continentes, espalhados pelo mundo, como é o caso da França, Espanha, Itália, Portugal, para citar apenas alguns da Europa, têm o turismo como a grande base do seu orçamento anual. Alguns destes países, que têm 60, 70 milhões de habitantes, recebem todos os anos mais visitantes que a quantidade de seus moradores.

Recebi então com grande alegria esta iniciativa, do Turismólogo Luciano Júnior, de se mostrar, ou se fazer um novo reconhecimento dessa região do Raso da Catarina e do Sertão e se buscar a palavra, a visão, a orientação de especialistas em turismo e em meio ambiente e procurar especialmente a adesão, o comprometimento dos gestores municipais para se mostrar ao mundo, de forma organizada, com o foco na preservação ambiental, esses muitos tesouros que, como disse o experiente Pasur Tenório, continuam adormecidos...

A proposta do Instituto VIS, chama a atenção para o grande potencial, verdadeiro tesouro adormecido, nesta região do Sertão e do Raso da Catarina, que, embora tenha alguns destes municípios inseridos nesses estudos anteriores, não têm sido trabalhados convenientemente embora neles se encontrem atrativos de grande monta e pouco e desordenadamente explorados como o cânion da Baixa do Chico entre os municípios de Paulo Afonso e Glória, o “caldeirões” gigantescos nos territórios de Macururé e Chorrochó, a riquíssima história de Canudos, as histórias centenárias também de Glória e Jeremoabo, as comunidades indígenas e quilombolas com as suas tradições e ensinamentos, os imensos cânions impactantes e a Cachoeirinha da Queimada do Raso de Euclides da Cunha e a beleza do artesanato de linhas na Malhada Grande, de pedra, no Rio do Sal, de couro de tilápia, e de palha, madeira em territórios de muitos desses municípios sertanejos.

A tudo isso se junta os ritos, crenças e danças, a religiosidade popular santabrigidense, as ações associadas ao ciclo do cangaço, que fez desta região o seu coito por cerca de dez anos, o espetáculo do voo das araras azuis de lear, além da possibilidade do desenvolvimento da cajucultura e do mel e do artesanato em territórios desses municípios.

Não estive presente fisicamente, impedido pela falta do vigor da juventude, mas acompanhei todo percurso como se lá estivesse e compartilhei com o jovem Luciano Júnior, nas várias reuniões que aconteceram no Jornal Folha Sertaneja e durante a realização das etapas desse projeto, a minha expectativa altamente positiva pela presença comprometedora dos novos prefeitos, eleitos ou reeleitos e muitos dos seus colaboradores atuais ou futuros nessa empreitada.

Ali estava o prefeito eleito de Paulo Afonso, Mário Galinho e grande equipe a ele ligada e também membros de órgãos como ASCOPA, Sebrae, AGTURB (Guias de Turismo), Comtur e vários especialistas da área. Ali estavam o prefeito, Tista de Deda, o vice, Fábio e vereadores eleitos de Jeremoabo. De Euclides da Cunha, o prefeito atual, Luciano Pinheiro e o prefeito eleito, Heldinho, e muitos secretários apoiando esta iniciativa. De Santa Brígida, o prefeito reeleito, Elton Magalhães enviou três secretários municipais. De Glória, o prefeito David Cavalcante enviou o seu secretário de Turismo e Cultura.

Descobertos tantos tesouros, valorizados por todos os gestores de municípios desta região do Sertão e Raso da Catarina, poderão estes gestores se unirem e levarem ao governo do Estado a proposta de criação de uma Zona de Turismo Sertão e Raso da Catarina para trabalharem essa grande potencialidade e, ainda estabelecer parceria com a vizinha Zona de Turismo Lagos e Cânions do São Francisco, ampliarem a oferta de atrativos a partir dessa possível parceria, aumentarem o tempo de permanência dos turistas e visitantes a esta região e com isso promoverem o desenvolvimento regional sustentável e oferecerem aos seus munícipes uma melhor qualidade de vida.

Estivesse eu presente na palestra programada para o Aconchego do Raso no segundo dia deste evento seria isso que lhes diria. Se houver comprometimento dos gestores de cada município e unidade de ações de cada um junto ao governo do Estado, aos seus representantes na Assembleia Legislativa, na Câmara Federal e Governo Federal e seus órgãos promotores do desenvolvimento regional, logo se terá nessa região uma atuante Zona de Turismo Sertão e Raso da Catarina.